terça-feira, novembro 15

"O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos..."

Excerto de "Se te queres" - Àlvaro de Campos


Demasiado a frio caro Álvaro, olha que há calor nos homens até chegar a vez de eles serem chorados, e memória se tiverem essa sorte...

3 Comments:

Blogger conteúdo latente said...

há calor sim... às vezes um ou outro emissor ou receptor menos sensível.Há mecânicos ainda assim, e a possibilidade de concerto.
beijo azul*

quarta-feira, novembro 16, 2005 1:55:00 da tarde  
Blogger barbAs said...

A noção de que há calor, é o mesmo que calor. E o concerto é saber os nomes dos mecânicos...
E nós sabemos, não é?
beijinho grande
(tenho saudades tuas...)

quarta-feira, novembro 30, 2005 12:58:00 da manhã  
Blogger conteúdo latente said...

é, é sim...
(também há comigo muitas saudades de ti.)

sábado, dezembro 03, 2005 12:14:00 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home